Juros do passado

Dito Lobo - Dito Lobo

Muitas cidades históricas de Goiás estão colhendo frutos da preservação seu casario colonial. Goiás, Pirenópolis e Corumbá de Goiás são exemplos de cidades que transformaram as “casas velhas” em fonte para impulsionar a economia.
Em Silvânia foi diferente. Não houve preservação do patrimônio histórico. E não é coisa de agora não. O descaso com a história, o patrimônio e a preservação de nosso casario vem de muitos e muitos anos.
Entidades que não se entendem e não se bicam, poder público que não dá valor, lei de tombamento só no papel.
A cidade vive de um bairrismo piegas, que se contenta com pouco e vê aqueles poucos interessados em preservar sua história, cultura e arquitetura desprestigiados pelo poder.
A família de minha mãe é de Corumbá de Goiás. Há 20 anos quando ia com o Getúlio Silva visitar os parentes de lá, em Corumbá não se achava um bolo de três cores para um lanche. Hoje a cidade é cercada de pousadas, restaurantes, hotéis fazenda, lojinhas de artesanato. E repleta de turistas carregando máquinas digitais a tira colo e carteiras recheadas de dinheiro.
Tudo isto movimenta a economia, gerando emprego e renda, melhorando a qualidade de vida do povo.
Mas lá houve projeto a curto, médio e longo prazo. Assim como em Goiás, Pirenópolis, entre outras.
O ex-governador Marconi Perillo incentivou muito a cultura goiana. E em oito anos de Marconi, Silvânia não teve a ousadia de conseguir para seus limites algo como o Canto da Primavera de Pirenópolis, ou um festival gastronômico de Nova Veneza, ou um FICA de Goiás e sequer liderou a exigência da restauração e revitalização da estrada de ferro, como era plano do tucano.
Não conseguiu porque não se uniu, não se profissionalizou e desvalorizou sua cultura, sua história.
Poucos são os que têm condições financeiras para restaurar casarões antigos como este da foto.
Trata-se da casa do Dito Lobo, na Praça Umbelino Filho.
Nela hoje vive o senhor Vicente Gustavo de Paulo Lobo, o Vivinho (no detalhe). Vivinho é um dos maiores conhecedores da história de Silvânia.
Adoentado vive sob os cuidados da família que agora restaurou o casarão.
Precisamos procurar outro nincho de mercado. Silvânia será uma eterna cidade histórica de passado que não sabe colher no presente os frutos gloriosos de sua história.

3 respostas para “ Juros do passado ”

  1. rubens vieira silva disse:

    Célio, parabéns! Qualquer acréscimo às suas argumentações seria atentar contra a excelsitude do texto. Mas, aproveitando o ensejo, a volta do trem passageiro e o aproveitamento das estações ferroviárias (museu - antigo projeto do Governo Marconi), seria interessante rediscutir.

    Quanto aos casarões, embora poucos ainda resistam ao tempo e ao desmando dos governantes locais, é bom ver pelo menos um restaurado, ostentando o seu maior galardão: o amigo Vivinho.

  2. Cleverlan A. do Vale disse:

    Excelente assunto Célio!

    Para não generalizar a inércia e descaso do Poder Público, gostaria apenas de justificar algumas ações que foram empreendidas.

    A respeito da sinergia das entidades, não acho justo avaliar por uma questão pontual, que há muito foi resolvida, que entidades não se bicam, pois há muito interesse, esforços, boa vontade e unidade. O que não existe é a devida valorização e apoio por parte da atual administração municipal, isto sim, eu concordo!

    Quanto aos incentivos culturais do governo estadual, precisamos avaliar para onde e o porquê eles foram levados. O Canto da Primavera, o festival gastronômico de Nova Veneza e Pirenópolis, FICA, TENPO de Porangatu, dentre outros, foram destinados a cidades dotadas de infra-estrutura que não dispomos ou de uma proximidade da Capital, como é o caso de Nova Veneza, que não a temos. Portanto, para requerermos e conseguimos este tipo de apoio, primeiramente, precisamos de nos estruturar, nos unir e quem sabe, delinearmos algum projeto que não seja revestido apenas de utopias.

    Quando secretário de cultura, realizamos pedidos neste sentido, principalmente na criação de um festival de música anual, mas infelizmente pecávamos em ter somente o desejo e não dispormos da mínima capacidade estrutural.

    Sobre o projeto Estação Goyazes, participei de reuniões e de algumas audiências com o então Presidente da Agepel, Dr. Nassr Chaul e este projeto não andou por falta de parcerias, principalmente com o governo federal. A Ferrovia Centro Atlântica, hoje, tem transferido os prédios em comodato para as prefeituras, mas parece que em Silvânia optaram por aceitar uma oficina mecânica no local – Fazer o que? Recorrer a quem?

    Quanto à lei de tombamento, iniciamos com muita determinação, uma jornada árdua e muito complicada. Aqui, gostaria de reafirmar que sem a colaboração direta dos amigos Emilio Nicomedes, Edmar Camilo Cotrim, Zé Cidadão, Noemi Arraes, Aldair Aires, dentre outros e da anuência da ex-prefeita Gilda Naves, dificilmente teríamos condições de iniciar este necessário processo.

    Fizemos a nossa parte, ou seja, iniciamos os tramites legais e só não os concluímos devido a três contestações judiciais. Sei que para o sucesso do intento teríamos de ter recursos orçamentários para ações futuras, mas com o término do mandato e a mudança de administração, isto não foi possível. Hoje, posso assegurar que temos um Conselho Municipal inoperante e que se provocado, com absoluta certeza apresentará justificativas de impedimentos, focando sempre a falta de recursos, como já o fez em matéria jornalística sobre o assunto. A atual administração deixou claro o seu desinteresse, quando tentou e não conseguiu, acabar com a Lei de Tombamento através de uma proposta desconexa, sem fundamentação legal, defendida pela Procuradoria Geral do Município.

    Portanto, se temos hoje um bairrismo piegas, graças a Deus que ainda o temos! Se este bairrismo é ridiculamente sentimental eu não sei. Sei que vale a pena senti-lo e vivenciá-lo. Dar o primeiro passo. Cobrar ações de nossas autoridades. Impedir novas demolições. Criar mecanismos que impeçam que os poucos vestígios de nossa história sejam literalmente “tombados” pela insensibilidade, ignorância e pouco caso, ao menos, deixam alguns com a consciência tranqüila por tentar.

    Não rechaço a sua análise amigo Célio, compreendo o que você quis dizer nas entrelinhas. Apenas creio que ainda temos condições de fazer alguma coisa e espero muito mudanças, principalmente de mentalidades.

    Maior que o descaso com o nosso patrimônio histórico edificado, tem sido a falta de interesse em ajudar quem poderia reverter um pouco esta situação. Por isto eu sempre digo: Silvânia não pode ser comandada somente por uma mente (que às vezes mente). Esta terra precisa de uma maior atenção, carinho, respeito, comprometimento e seriedade.

  3. thalia disse:

    e legal
    muito bem esestão de parabens

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