Espetáculo perigoso

“Poucas horas após a polícia afirmar que o assassinato de Isabella Nardoni, 5, estava 70% esclarecido, o pai e a madrasta da menina foram libertados por ordem judicial. Alexandre Nardoni, 29, e sua mulher, Anna Carolina Trotta Peixoto Jatobá, 24, que passaram nove dias na cadeia, foram soltos. Ambos foram protegidos por escolta policial.
A saída de Alexandre do 77º Distrito Policial (Santa Cecília, centro de São Paulo) foi presenciada por cerca de 200 pessoas, que gritavam “assassino” e “lincha”. Anna Carolina, que estava no 89º DP (Portal do Morumbi, na zonal sul), também foi hostilizada por curiosos na porta da delegacia: “pena de morte”, “assassina” e “cadeira elétrica” eram alguns dos gritos mais comuns dirigidos a ela.
Com as TVs e rádios informando a todo o tempo o trajeto de Anna Carolina Jatobá e de Alexandre Nardoni, das delegacias ao Instituto Médico Legal (IML), uma multidão foi se formando em frente ao local.
“Morre, desgraçado, covarde”, gritava um transeunte. “Também acho que foi a madrasta”, dizia outro. Irritava-se a platéia de curiosos, que pouco via além dos logotipos das emissoras nas costas dos cinegrafistas e do espocar dos flashes dos fotógrafos.
O bárbaro assassinato da pequena Isabella desencadeou um forte e compreensível desejo social de punição. Alguns policiais, armados de precipitação e sede de notoriedade, acabaram pautando a opinião pública e a própria mídia. Quando o pai de Isabella, um dia após o crime, saía do distrito policial onde prestara depoimento, uma delegada presente no local dirigiu-lhe os gritos de “assassino”. A encarregada do inquérito, num procedimento surpreendente, informou à imprensa a respeito dos níveis porcentuais já atingidos no esclarecimento do caso. A loquacidade inicial do promotor, intensa e diária, mereceu reparos do Judiciário. As autoridades, de fato, armaram o espetáculo e alguns setores da mídia, sobretudo certos telejornais, entraram em cheio no crime do ano. A repetição exaustiva de cenas garantiu, certamente, uma bela audiência. Não sei se garantirá a credibilidade. Os jornais têm sido razoavelmente sóbrios, mas a televisão tem forçado a mão.
Quando escrevo este artigo, sob o impacto da brutalidade, não conhecemos o desfecho do caso. As suspeitas contra o pai e a madrasta, fortes e perturbadoras, levarão ao indiciamento. Mas não podem ser transformadas em instrumento de uma irreparável execração pública. É preciso esperar a decisão da Justiça. Para além do crime terrível, cuja investigação parece apontar na direção daqueles que deveriam dar amor e proteção à frágil vítima, paira no ar uma pergunta inquietante: como explicar a ruptura, cada vez mais freqüente, de todos limites, incluindo os da própria natureza humana, que parece estar subjacente na cultura que perfila nossos tempos de obsessão pelo prazer e de fuga quase patológica da dor, do sacrifício e de abnegação? Trata-se de uma reflexão que se impõe e que será objeto de um próximo artigo.
O culto ao espetáculo e a submissão aos registros da audiência têm ocupado espaço em alguns meios de comunicação. No imenso shopping das emoções, promovido pela força do negócio do entretenimento que tudo banaliza e transforma em show, há prateleiras disponíveis para todos os gostos. Vivemos sob o domínio do inconsistente e sucumbimos à tirania do politicamente correto.
É muito perigoso confundir informação com espetáculo. Quando isso acontece, e infelizmente tem ocorrido em algumas coberturas policiais, a notícia se transforma num show co-produzido por repórteres, delegados e promotores. O esforço para conquistar audiências, legítimo e necessário, não pode ser feito de costas para a ética.
O show business é uma realidade, mas ainda há espaço, e muito, para o jornalismo de qualidade. A hora é de freio de mão e de bom senso~. ”

Este artigo foi publicado na edição hoje do jornal O Popular. Seu autor é Carlos Alberto DI Franco, Diretor do Master em Jornalismo, professor de ética e doutor em comunicação pela Universidade de Navarra.

11 respostas para “ Espetáculo perigoso ”

  1. Cleverlan do Vale disse:

    A grande maioria da população brasileira no fundo torcia para que as evidências não levassem aos verdadeiros culpados, pois o ato é mais do que inaceitável, foi uma barbárie que não temos nem como comentar como um pai a praticar um ato como este.

    Uma atrocidade como esta, que nos causa asco e nos faz pensar em nossos filhos e no amor que sentimos. Prefiro pensar que os dois (pai e madrastra) - caso sejam culpados pela justiça - são dois desequilibrados emocionais, que descarregam suas iras em uma criança indefesa.

    Atos como estes nos assustam, mas outros acontecem na mesma proporção, só que não evidenciado da forma que foi este. Embora o autor do artigo discorra sobre o shopping das emoções explorado pela mídia, este fato vai além disto, ele nos faz repensar os valores morais e sentimentais que unem as pessoas.

    Casamentos, namoros e convivências em conflitos, mesmo que internos, acabam respingando nos filhos e a incapacidade de aceitá-los acabam levando a atos extremos como estes e o que é pior, descarregando e descontando em quem não se tem culpa.

    Peço somente a Deus que recebe esta alma inocente e que a justiça terrena se incumba de sentenciar os verdadeiros culpados.

  2. rubens vieira silva disse:

    Quem assistiu longa entrevista revelada pelo “Fantástico”, deste domingo último, custa a acreditar na possibilidade de pai e madrasta terem praticado esse crime. Se realmente forem os culpados, a psicanálise jurídica deve rever seus conceitos. Que o diga o imortal Césare Lombroso.

  3. Comunicadora Social disse:

    A sociedade caminha cada vez mais ao “Ter” deixando de lado o “Ser”. Sinto-me presa e de mãos atadas por não poder fazer algo que mudasse esta realidade. O mundo caminha dia após dia para o abismo, pessoas sem escrúpulos, sem medo, sem amor, que se importam somente com seu próprio estar passam por cima de tudo e de todos esquecendo até que são pais, e que existe um Pai maior, superior, que nos vê, ouve, e sabe de todas nossas ações e sentimentos. Onde está o amor ao próximo? Onde está a fé em Deus? Será que Deus existe nas mentes e nos corações destes bárbaros? Não. Não existe. Se existisse saberiam amar e ser amados. Que mundo é este que um pai mata a própria filha? Nem mesmo os animais cometem tamanha covardia uns com os outros, será que podemos nos julgar superiores? Não, se não mudarmos nossos princípios voltaremos à pré-história.

  4. Alba Stefânia disse:

    Peçamos a Deus mais paz no coração dos homens!!!

  5. rubens vieira silva disse:

    A leitura de Arnaldo Jabor hoje, no Caderno 2 do jornal “O Popular” é recomendável (Caso Isabella: a dor da falta de sentido).

    Seguem alguns versos:

    No dia fatídico, passeia o destino.
    Hino à fantasia, nostalgia de vidas
    expostas, decompostas.

    Sobe o elevador,
    dor derramada, calada.
    Sentimentos doentes, ausentes…

    Dormitório - crematório!
    Provas de sangue, tange.
    Pegadas, criança jogada da janela - crime de bagatela?

    Frieza, firmeza.
    Lágrimas em tonéis,
    guardadas, pinceladas na mída!

    Surge o retrato lúgubre.
    Advogados frios, quais assassinos
    de meninos - terreno insalubre!

    A toga não dialoga, solta.
    Resguarda-se. Não guarda.
    Prisão reservada aos miseráveis!

    A sociedade clama, chama…
    fruto abrasador da revolta.
    Escolta da justiça vendando os olhos!

    Passam os dias, o sétimo!
    Outros virão, crimes também.
    O tempo também sepulta a memória!

    Isabella, onde está?
    Nos céus dos pensamentos nossos?
    Apenas? Nos de Deus também!

    Justiça… Divina!
    Humana, triste sina!
    Codificação humana - desengano!

  6. rubens vieira silva disse:

    Obs.: Os versos não são do Arnaldo Jabor. Pelo fraco conteúdo, sabem-se que são meus. Não importa.

  7. cida disse:

    nao existe crime perfeito, sempre deixam rastos..

  8. cida disse:

    entrevista do fantastico (pai e madrasta) enteressante choro sem lagrimas, tudo fingimento, nao tem saida para os dois nao, tudo indica e aponta para eles, a nossa esperança era que nao fossem eles, mas nao existe uma 3 pessoa, pena ne pq onde chegamos e mto triste as pessoas que deveriam proteger, espancam e mata emuita crueldade barbaro…

  9. Cleverlan do Vale disse:

    Não se substime amigo, os versos são lindos, profundos e advindos da alma. Parabéns!

  10. rubens vieira silva disse:

    Obrigado, Cleverlan. Bondade sua!

  11. rb disse:

    NÃO HÁ O QUE FAZER SENÃO A CONFISSÃO! A TODO MOMENTO TRATAM COM FRIEZA O EMBRÓLIO EM QUE SE METERAM, APÓS AGREDIR A INDEFESA MENINA E TENTAR APAGAR A “CAGADA“. SE APRESENTAM A DISTANCIA DO PROBLEMA. NÃO AGEM COMO VITIMAS DE UMA TRAGÉDIA. NÃO SE DISISPERAM COMO QUALQUER PAI/MÃE QUE PERDE UM FILHO EM QUALQUER IDADE. SE CONDENARAM NA LARGADA. EH ESTA TRISTEZA TODO DIA NA TV, EXPLORANDO A TRAGÉDIA HUMANA. IML, PERÍCIAS, ACARIAÇÕES, RECONSTITUIÇÕES, DECLARAÇÕES, COMO UMA NOVELA TRÁGICA A SACIAR A MÍDIA E AS PESSOAS QUE APRECIAM A DESGRAÇA HUMANA, COMO SE ESTIVESSEM LIVRES DE TAMBÉM AS SOFRER…..

Deixe uma resposta.